Peca corneta2022-03-31T08:09:06+02:00

Peca corneta

 

Conheça as histórias partilhadas dos correios e telecomunicações de Portugal e da Eslovénia

Em toda a Europa existem museus dedicados à história das comunicações humanas e que têm como missão a guarda, partilha e divulgação do património dos correios e das telecomunicações.

Habitualmente com um cariz educativo e com os olhos postos no futuro, estes museus são um espaço de diálogo e debate sobre a forma como comunicamos e projetamos o nosso futuro.

Em 2021, após um encontro entre a equipa do Museu das Comunicações em Portugal (Fundação Portuguesa das Comunicações) e a equipa do Museu dos Correios e Telecomunicações da Eslovénia, surgiu a ideia de iniciarmos uma parceria entre as duas entidades a que demos o nome “Connecting Stories”. Um projeto que pretende analisar e comunicar as semelhanças e diferenças dos seus discursos expositivos e do património que têm à sua guarda.

Este projeto, que agora iniciamos, tem como objetivo o aprofundamento do conhecimento entre os dois países, da sua História e tradições, através dos correios e telecomunicações. Para isso iremos divulgar ao longo do ano algumas peças que temos em comum e que estão expostas nos corredores dos nossos museus, bem como assinalar algumas datas que nos unem.

Na exposição permanente “Vencer a Distância – Cinco Séculos de Comunicações em Portugal”, junto da peça que trimestralmente estará em destaque teremos uma fotografia da sua “gémea” eslovena, bem como uma explicação do discurso interpretativo e histórico de que faz parte.

Connecting Stories constitui-se assim como uma iniciativa que se pretende duradoura ao abrir uma janela de conhecimento e partilha de experiências entre dois museus geograficamente distantes, mas com o mesmo desígnio de pensar a história das comunicações no passado, presente e futuro.

1ª PEÇA CORNETA

 

O uso da corneta pelos serviços postais acompanha a História da Europa e está documentado desde o século XVI. O mensageiro que usava a corneta era chamado de postilhão, uma figura emblemática que fazia a entrega de cartas nos castelos, quintas ou localidades onde o correio era esperado.

Em Portugal o postilhão é representado a cavalo, com uma trombeta, uma corneta ou ainda uma buzina na mão. O instrumento servia igualmente para dar sinal de despedida, quando partia para o próximo destino. A figura do mensageiro do correio com uma corneta rapidamente passou a ser confundida com a própria atividade. Quando se ouvia a corneta logo se dizia “vem aí o correio”. Talvez seja por isso que passou dos tempos antigos para os modernos e em muitos países do mundo se tornou a “marca” mais visível do serviço postal.

Nos escritos de Fernão Lopes – Crónica de D. João I (1450) encontramos o mais antigo registo do trabalho do postilhão em Lisboa:

“E sendo terça-feira e muita gente estivesse à tarde na Sé (de Lisboa) para rezar a salve Rainha, como de costume, chegou (cavalgando) um moço João Martins Cozinho, morador em Alenquer, que fez saber aos da cidade que tomassem mui grande prazer. Porque ficavam certos que el-Rei seu senhor houvera batalhar com el-Rei de Castela e o desbaratara e vencera em campo.”

Durante a monarquia, o logotipo oficial dos correios portugueses era o brasão da coroa. Já com a República, em 1936, passou a ser a esfera armilar, encimada por um escudo com as quinas, atravessado por um raio, que significava as telecomunicações.

O “mensageiro a cavalo” que sopra na corneta de cano direito data de 1953 e teve várias adaptações – 1964, 1993, 2004 e 2015 – até chegar à imagem que usamos hoje.

Por norma, a “trombeta” ou “corneta” pode ser um instrumento de cano direito ou curvado. Porventura por maior familiaridade de uso, em Portugal o “postilhão” aparece com a “corneta militar”, de cano mais direito, à moda inglesa, enquanto noutros países como na Eslovénia o instrumento de eleição é a “corneta enrolada”.

Os postilhões eram os empregados dos correios que transportavam remessas postais e surgiram no território da atual Eslovénia com a introdução do correio a cavalo no século XVII. Nas estações de correio, ocupavam-se dos cavalos e das carruagens de mala-posta. No seu trabalho portavam fardas e serviam-se das cornetas. Usavam-nos para anunciar a chegada à estação de correios para que os procedimentos oficiais fossem realizados o mais depressa possível. Eram também uma maneira de comunicar a importância dessa viagem.

Mediante um sinal de correios especial, os postilhões anunciavam que todos os outros veículos tinham que lhes dar espaço na estrada ou que na estação de correios tinham que preparar um certo número de cavalos para serem trocados. A corneta de latão com uma fita decorativa, pode ser, hoje-em-dia, vista no Museu dos Correios e das Telecomunicações em  Polhov Gradec. Durante muitos anos, pertencia à família Tomšič que tinha em locação precisamente aquela estação de correios de Polhov Gradec.

Em meados do século XIX, a atividade postal se intensificou e a administração dos correios procedeu a uma reformo radical do serviço postal. Foram introduzidas várias novidades tal como o selo postal, a ordem de pagamento, os cartões postais, os bilhetes postais e outras. Aumentava o número de agências de correios. Em cidades maiores, as agências de correios pertenciam ao Estado, nelas trabalhavam funcionários de Estado, e, nas vilas e aldeias, a maioria eram agências de correios contratuais que o Estado dava em locação. Os locatários recebiam um ordenado anual que dependia do rendimento de cada agência de correios e uma quantia fixa para cobrir as despesas. Naqueles tempos, a criação de uma agência de correios singnificava um contributo importante para o desenvolvimento de uma vila.

Muitos habitantes ilustres esforçaram-se por conseguir que houvesse uma agência de correios em Polhov Gradec, entre outros também o presidente da câmara municial, Janez Tomšič, que em 1869,  assumiu a direção da agência de correios contratual. Para o transporte para Liubliana e de volta comprou uma égua e uma carruagem de mala-posta. Como as remessas eram poucas e a atividade e o rendimento dependiam da quantidade, ele muitas vezes escrevia cartas para a mala-posta ir à caminho pelo menos com uma carta. Depois da sua morte, a agência de correios foi durante algum tempo dirigida pela sua esposa e, mais tarde, pela sua filha. Em 1891, durante um controle de funcionamento da agência de correios sem aviso previo um comissário superior de correios da Direção de correios de Trieste constatou que a agência de correios de Polho­v Gradec era muito pequena e que o seu desempenho não era satisfatório. Decretou que a carruagem de mala-posta só podia viajar para Lubliana quatro vezes por semana.

Depois da morte da mãe, voltou para Polhov Gra­dec o filho de Janez, chamado France, e assumiu a direção da agência de correios. A quantia fixa que os carteiros contratuais recebiam do Estado pelas despesas do material e a entrega do correio era normalmente muito mais baixa dos custos reais. Como dependia do número de clientes, France Tomšič esforçava-se constantemente por conseguir clientes novos. »Fazia o melhor que podia para dar mais valor aos correios. Quando foi fundada a leitaria fazia sozinho as caixas para a expedição da manteiga e assim atrai alguns clientes,« ele escreveu.

A última carruagem de mala-posta com postilhão partiu para Lubliana a finais dos anos vinte do século passado. Quando, nos anos trinta do século passado chegou a Polhov Gradec a primeira camioneta o correio começou a viajar mediante a linha rodoviária regular. Naquela época, o postilhão se serviu da corneta pela última vez, a corneta que hoje-em-dia faz parte da coleção do Museu dos correios e das telecomunicações na mansão de Polhov Gradec.

Postni rog foto Nada Zgank in Domen Pal Postni rog foto Jaka Blasutto
Museu dos Correios e das Telecomunicações: peca corneta, foto Nada Žgank in Domen Pal Museu dos Correios e das Telecomunicações: peca corneta, foto Jaka Blasutto
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Fundação Portuguesa das Comunicações: peca corneta, foto Luís Filipe Oliveira Fundação Portuguesa das Comunicações: peca corneta, photo FPC Communication team

 

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